Retalhos de um ex-combatente

Pretende-se com os RETALHOS (que ainda são memórias vivas) e sem pretensiosismos literários, dar uma visão do trajecto de um Militar que serviu nas Tropas Pára-quedistas e que foi à guerra em África. Pretendo ser o mais rigoroso possível, quanto a factos, datas ou nomes. Mais de trinta anos passados e com a memória um pouco envelhecida - mas lúcida – deixo aqui o meu testemunho. José Marques

Retalhos de memórias envelhecidas

Wednesday, January 11, 2006
 
Essa coisa

Ontem tive uma agradável surpresa, quando andava no sótão, remexendo nas coisas que sempre arrumamos e não nos queremos desfazer. Manias de um cinquentão ou manias de quase toda a gente.
Encontrei uma coisa que norteou a minha vida precisamente durante 40 meses. Coisa essa perdida entre livros e outras velharias, coisas que no seu tempo não dávamos a devida importância, mas que quando as revisitamos, nos contam histórias, retalhos de uma vida.
Essa coisa que encontrei e que já tinha dado por perdida, tem muitas histórias por contar, e todas por escrever.
Essa coisa representa seis porcento dos já muitos dias, meses e anos que por cá ando.
Essa coisa que desprezei durante quarenta meses, que me dava vontade de sei lá o quê, apesar da pouca consciência que eu tinha do mundo e principalmente da política.
Essa coisa azul de 13X10 cm, com tantas páginas como eu conto por anos a minha vida, precisamente 55 páginas.
Essa coisa chamada caderneta militar.
Esta coisa relata desde 18 de Dezembro de 1969 a 4 de Outubro de 1973 a vida de um militar na aeronáutica que serviu nas forças paraquedistas, que por entre a recruta, e os cursos de paraquedismo, de combate, de minas e armadilhas, boxe e defesa pessoal e tantos outros. Ainda atravessou uma guerra como tropa especial, especialmente treinados para combater, sofrer e morrer.
Mil histórias por contar aos retalhos, narrativas verídicas e testemunhadas por colegas ainda presentes.
Tivesse eu o talento e o bom português necessário e tentaria deixar aqui algumas dessas histórias.

Não ouvem suas merdas

Estávamos em Julho de 1969, quando o astronauta Neil Armstrong, bem lá em cima na Lua, dizia aquela famosa frase: "Um pequeno passo para o Homem, um salto gigantesco para a Humanidade" e eu cá em baixo com os meus quase vinte anos e com um calor abrasador, vou, estupidamente, todo pimpão, a uma Junta Distrital de Recrutamento Militar situada numa antiga casa conventual que se transformou em Hospital Militar (Enfermaria Militar em pleno séc. XX, até à década de setenta). Este edifício deteriorou-se e foi parcialmente delapidado, entregue ao ostracismo e degradação (anos setenta), valendo a recuperação pela paróquia que o adquiriu em 1981, procedendo às necessárias obras de restauro: Centro Social e Paroquial, jardim-de-infância e serviços de alcance humano e espiritual.
Estávamos todos no átrio, rapazes de todas as classes e origens. Do rapaz pobre da urbe (como eu), acolhido no largo das almas, junto à antiga Igreja Matriz, (hoje Igreja das Almas), ao filho de boas (ricas) famílias, que envergonhados por não pertencer à maioria (a pobreza abundava por estas regiões), se refugiavam num canto. Dos vulgos saloios das aldeias e das serras, de ceroulas e chancas no verão, até ao filho do abastado agricultor.
Entrámos e um sargento do exército, logo berrou com aquela voz de suposto macho latino:
- Todos em bicha.
Claro, que já havia bichas nessa altura, mas o estúpido sargento, era assim que nos mandava enfileirar para sermos observados. Eu disse observados? Nada disso… era só para darmos o nome e alistarmo-nos, para a guerra colonial em África. Mas para quê observar? Se aproveitavam tudo e todos e ainda eram poucos.
E lá ia vociferando aquele animal fardado:
- “Não ouvem suas merdas, é assim que querem ser militares?”.
Ouvem-se vozes em surdina entre os reguilas de pé descalço cá da urbe:
- “Quem pensa que é este filho da puta?”.
Ninguém teve a coragem de levantar a voz para aquela barriga fardada. Lá nos pesaram e mediram, sempre nus, não sei porquê, pois aproveitavam coxos e marrecos e tudo o que viesse à rede. Quem não quisesse, que fugisse a salto para França como tantos outros.
Depois de todos estes procedimentos, deram-nos uns impressos para preencher: se não quiséssemos ir para o exército, poderíamos escolher entre a Marinha e a Aeronáutica. O gajo afinal era nosso amigo! Até nos sugeria outras opções! Nada mais falso: eles queriam era voluntários para tropas especializadas, a que hoje vulgarmente chamamos “Forças de Intervenção Rápida”.
Nessa altura ainda me martelava nos ouvidos “Não ouvem suas merdas? É assim que querem ser militares?” e foi com isso a zurzir nos ouvidos que tomei a minha primeira grande decisão e disse para o Jorge, amigo pachorrento com cara de menino, meu colega de muitas lides e brincadeiras desde a escola primária:
- “Militar como ele não vou ser de certeza! Vamos para a Marinha, Jorge?”.
Respondeu-me de imediato o Jorge: - “Estás maluco, eu nem sei nadar!”.
E do outro lado do trio, disse o Fiúza, o pescador:
- “Vamos Zé? Eu vou inscrever-me para a Marinha”.
Estas posições opostas, de dois amigos de infância, baralharam-me as contas, pois fazia intenção de irmos os três juntos para a tropa. Então, sem lhes dizer a verdadeira razão, pois para mal dos meus pecados também não sabia nadar, disse:
- “Nada disso, vamos para a Força Aérea e o culpado é aquela barriga fardada. Não quero ir para o Exército”.
E foi assim que me inscrevi na Força Aérea. Como dentro desse ramo das Forças Armadas havia pára-quedismo, e como os putos da rua como nós eram ávidos de aventura, vai daí… alistámo-nos, os três amigos, nas Forças Pára-quedistas.
Assim, tomei uma das minhas decisões mais importantes, a qual iria marcar positivamente o resto da minha vida, quer pelo espírito de grupo e camaradagem, quer pelos ensinamentos que fui recolhendo ao longo de quarenta meses de serviço militar, onde o lema era: “Que nunca por vencidos se conheçam”.
Mas a parte “estúpida” desta crónica consiste no que aconteceu a seguir. O grupo oriundo das aldeias e das serras, munindo-se de bombos e pandeiretas, foi tocando e bebendo ainda mais, pelas ruas, como quem ia para uma festa muito importante. Muitos deles acabariam por perecer na guerra…
Só passados uns bons meses é que eu percebi e interiorizei o sentido e as motivações com que eles, no fim da inspecção militar, foram festejar pelas ruas, como o anunciar de uma festa ou de uma romaria. Era provavelmente um grito de libertação, por saírem do mundo atrasado e das aldeias em que o ditador Salazar os tinha deixado.
Sempre que me lembro disto, lembro-me, simultaneamente dos mortos da guerra, da carne para canhão em que eles se tornaram.

QUE DESCANSEM EM PAZ!


Embarcar para a aventura

A doze de Dezembro de 1969, em Itália, ocorre o "Massacre de Estado": bombas colocadas por fascistas e manipuladas pelos serviços secretos italianos que praticam a "estratégia da tensão" (o que só se soube anos mais tarde), explodem na estação de Milão, matando várias pessoas. O anarquista Pietro Valpreda é acusado e preso por dois anos, injustamente.
Cinco dias após estes acontecimentos, lá estava eu também numa estação ferroviária em Viana. Um belo conjunto arquitectónico edificado entre 1878 e 1982, sob projecto do Eng.º Alfredo Soares, que incluía uma elegante escadaria voltada para Sul. Subsiste a obra dos alçados em cantaria; elementos acessórios (gare e coberturas laterais) com a característica estrutura de ferro fundido, muito em voga nas últimas décadas de Oitocentos. Hoje está praticamente fundida com o centro comercial Estação de Viana, com arquitectura temática, inspirada nos caminhos-de-ferro.
Estava pronto para embarcar pelas 22 horas na aventura de fazer trezentos quilómetros em cerca de sete horas.
Tinha sido convocado para prestar testes nos pára-quedistas em Tancos. Tancos era uma freguesia de Vila Nova da Barquinha, situada no centro do país, com uma população civil de cerca de seiscentas almas. Para além do Entroncamento, que deve o seu nome ao facto de aqui entroncarem duas linhas de comboio (a que liga Lisboa ao Porto e a que liga a Linha do Norte a Espanha), surge situado numa pequena ilha escarpada, no curso médio do rio Tejo, o Castelo de Almourol, um dos monumentos militares medievais mais emblemáticos e cenográficos da Reconquista, sendo, simultaneamente, um dos que melhor evoca a memória dos Templários no nosso país.
É desta simpática localidade, sob o comando do general Norton de Matos, que o Corpo Expedicionário Português (CEP), formado por trinta mil homens, sai em 1917 do Tejo para França (1.ª Brigada do CEP) a bordo de três vapores britânicos; é aqui que, em 1956, é criado o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas – BCP – dependente da recém criada Força Aérea Portuguesa. Mais tarde, com o rebentamento da guerra em África, é criado o Regimento de Caçadores Pára-quedistas (RCP).
Lá chegámos ao RCP por volta das cinco horas da manhã. Cinquenta candidatos a pára-quedistas de vários pontos de país, cansados da viagem mas também excitados pela aventura. Ficaram todos à conversa, todos com histórias para contar. Sentia-se ali um misto de basófilas e valentões e eu lá pensei com os meus botões: onde é que me vim meter? Acabaria por comentar com o Fiúza pescador:
- “Pá, já viste isto? Acho que não pertenço a esta guerra, só marados e cabeludos”.
Então, debaixo daquela calma enervante, diz o Jorge Viana:
- “Tende calma, não há-de ser nada, se eles conseguem… nós vamos conseguir”.
E pensava eu que era um puto reguila da rua… Comparado com os tripeiros da banharia, alfacinhas do Casal Ventoso e outros, até me sentia meio envergonhado. Quase sem darmos conta, toca o clarim de alvorada e, como se houvesse uma mola, todos nos levantámos pensando que era para nós. A partir desse momento, acho que as pulsações subiram para a centena e por lá permaneceram, durante todo o dia. Enquanto isso, os militares “verdadeiros” lá se preparavam para a formatura e para mais um dia de instrução militar.
Depois de uma manhã dedicada aos testes físicos, lá fomos para um refeitório moderno e bem apetrechado, que funcionava já em sistema de self-service onde registei como primeira nota, e que me agradou de sobremaneira o seguinte: além do regime militar dos pára-quedistas ser duro, exigente, com uma disciplina férrea, e apesar de vivermos num período salazaristafascista, ali respirava-se democracia. A comida que era distribuída ao recluso ou ao recruta, era exactamente a mesma para o resto das patentes, fosse comandante ou ministro. Com o sol a pique, logo nas primeiras provas começaram a vir ao de cima algumas particularidades, sobressaindo dois grupos distintos. O que tinha a ver com força física bruta... desde o trabalhador agrícola ao que trabalhava nas obras e até na estiva - o trabalho exigia-lhes apenas força física e pouco mais, tinham poucos conhecimentos, só a escolarização e aprendizagem até á idade escolar primária e muitos deles sem a completarem; o outro grupo tinha a ver com menos força física, mas mais destreza, habilidade e inteligência. Estes eram aqueles a quem eu chamei de putos da rua, os reguilas habituados às espertezas, aos narizes esmurrados e algumas cabeças partidas mas que levavam a melhor.
Nós, para além do Fiúza que vinha das fainas de mar sendo uma força da natureza e muito combativo, éramos putos da rua.
- “Zé, já viste nas que nos metemos? São só brutamontes” - disse o Jorge.
Aproveitei para lhe devolver o incentivo, com um sorriso descolorido, dizendo-lhe:
- “Pá, se eles conseguem nós também conseguiremos”. - “Jorge, onde é que eu já ouvi isto?” - disse o Fiúza com ar de gozo.
Lá fomos dando cumprimento ao programa, com corridas, saltos, passagem de obstáculos e outros que tais, onde eu me sentia como peixe na água.
Há três aspectos que me marcaram: a força física, a inteligência e a coragem.

A força física
Nunca me tinha passado pela cabeça o difícil que era elevar o peso do nosso corpo, só com a força dos braços numa barra de aço suspensa.
- “Tudo lá para cima, minhas meninas, ou pesa-vos o rabo?” – dizia o instrutor.
Eu não sei quanto ou o que é que me pesava, mas subindo à força de braços, esgatanhando ou trepando, eu tinha de chegar lá acima cinco vezes.

A Inteligência
Apercebi-me dessa importância numa das provas quando, às tantas, gritou um sargento nada barrigudo e com um porte físico de respeito:
- “Vai toda a gente junto daquele caixote tirar um par de luvas e regressar aqui imediatamente!”.
Na terra batida onde o cascalho abundava, lá fomos nós mostrar a nossa agressividade.
Tocou-me em sorte um rapaz alentejano que pesava bastante mais do que eu. Comecei então a enfardar porrada, mas ia sempre à luta, quanto mais enfardava, mais ganas e vontade me dava para ir para cima dele.
- “Alto lá, parem!” – avisou o instrutor.
Depois virou-se para mim, talvez com um misto de pena por estar a levar uma boa dose, mas também com admiração pela valentia, apontou com o dedo espetado para a cara do opositor, gritando-me:
- “Que adianta a valentia se não está a ser inteligente? Vês aqui a cara deste chaparro todo contente? É aqui que tens de lhe bater. Aqui! Olhos bem abertos e vai-lhe às fuças sempre que lhe vires a cara destapada!”.
Claro que a partir daquele momento tudo mudou, deixei de ser eu a enfardar. A partir dali, toda a valentia e confiança do amigo alentejano se esfumou, acabando por se acobardar e encolher. Isto levou a que fosse eliminado.

A Coragem
Partimos para o último teste só com treze resistentes para o temido salto da torre. Todos alinhados para ver um salto de demonstração. Quando vimos um pára-quedista subir a uma torre enorme, preso por uma corda e lançar-se para baixo… um friozinho subiu pela espinha acima não deixando ninguém respirar até a queda se consumar. Os cabos retesaram-se, a cerca de um metro do solo, levando o Pára-quedista a manter os membros completamente firmes colados ao corpo, para que no momento do choque não virasse espantalho e lesionando-se gravemente.
Lá fui subindo, com as pernas “trémulas de coragem”, até ao patamar superior e, em posição de salto, lembrei-me do conselho do instrutor de boxe: “Olhos bem abertos e vai-lhe às fuças!”. Ao sinal, atirei-me com os olhos bem abertos para o espaço, recusando-me sempre olhar para baixo. Só houve um colega que não conseguiu saltar, já em cima da torre entrou em pânico e gritou:
- “Nãoooooooooo, não consigo! Não!!…”.
De facto, o temível salto da torre mete mais respeito do que saltar de um avião. Coincidência ou não, apenas metade dos que passaram nas provas médicas foi apurada.
Foi assim que nós, os três amigos, fomos escolhidos para as Tropas Pára-quedistas, em
dezoito de Dezembro de 1969, ficando eu com o Nº 1626/69.

O famoso pente zero

Em 11 de Maio de 1970, apresentei-me em Tancos, no Regimento de Caçadores Pára-quedistas, para dar início à verdadeira aventura, que era o alistamento nas tropas pára-quedistas, frequentar a escola de recrutas e ir por aí adiante até conquistar a célebre boina verde e o brevete.
Chegámos por volta das cinco e meia da manhã, depois de uma viagem turbulenta de sete horas num comboio, procedente do norte, superlotado só com militares. Do fim-de-semana chegavam ao Entroncamento, de vários pontos do país, militares do Exército, da Força Aérea e os Pára-quedistas às centenas.
Um grupo de pára-quedistas esperava por nós à porta de armas, para nos acompanharem às instalações. Na entrada do quartel e de forma imponente lá estava a estátua que simbolizava um Pára-quedista vindo dos céus. Todos os militares eram obrigados a “bater a pala” em sinal de respeito, nós feitos “maçaricos”, limitámo-nos a olhar com respeito
Depois das apresentações a cerca de duas centenas de candidatos a recrutas, os três amigos foram colocados no 7º pelotão da 1ª Companhia. O facto de continuarmos sempre juntos tem uma explicação simples: quando pela primeira vez, em Tancos nos mandaram formar, ficámos juntos mais por instinto de defesa que outra coisa preconcebida e assim nos foi atribuída numeração seguida. Por via disso e durante 40 meses, andámos sempre próximos.
Formámos na parada. Distribuíram a cada um o kit de fardamento com 32 peças e logo o oficial destacado avisou:
- Senhores recrutas, acabou de vos ser distribuído um kit de fardamento, composto por 32 peças, para iniciarem a vossa vida militar. No fim do serviço militar, demore este o tempo que demorar, têm que devolver todas as peças para fazerem o respectivo espólio.
Depois de uma pausa continuou:
- O nosso Sargento vai acompanhar-vos e ajudar nas tarefas que se seguirão, deixo-vos com ele.
Notou-se algum agrado na forma educada como nos tratou o Capitão, isso era visível em cada um de nós.
- COMPANHIA!!! – soou o vozeirão do sargento. Isto está uma bandalheira, eu quero toda a gente agrupada por pelotões na próxima formatura.
- Têm meia hora para arrumar o kit que vos foi distribuído e regressarem já equipados de ténis, calção e camisola branca – gritou o sargento.
- Vamos depois fazer uma visitinha que se vai prolongar por toda a manhã.
Apesar de inebriados pela simpatia do capitão, veio o reverso e acordámos com este vozeirão do sargento, como que a alertar que a tropa começaria naquele momento.
E começara mesmo, acabaram as palavras simpáticas com que até aí sempre nos tinham brindado, a bandalheira na formatura como naquele dia, acabara a roupa civil no quartel e estava quase certo que também iria acabar o cabelo daqueles jovens cabeludos de uma época de ouro, a dos anos 60, que ainda hoje falam dela com evidente orgulho.
Numa tremenda confusão cerca de 200 recrutas rapidamente mudaram de roupa e como se veio a confirmar fomos ao nosso amigo e famoso pente zero.
Pela primeira vez na minha vida e em 5 minutos, vi-me despojado do cabelo até ao casco e o surpreendentemente já não nos reconhecíamos, mais parecíamos almas penadas. Apesar do tempo